A partir de hoje, 15 de outubro de 2023, a China implementou novas restrições à atuação de assistentes digitais desenvolvidos por meio de inteligência artificial, impactando aplicativos que oferecem interações em relacionamentos virtuais. Essa decisão gerou uma série de reações nas redes sociais, especialmente entre aqueles que costumavam se conectar com esses parceiros digitais.
Antes da entrada em vigor das normas, importantes empresas do setor, como ByteDance, Alibaba e Tencent, já tinham desativado as funções de companhia virtual em seus sistemas de chatbot, antecipando-se às exigências regulatórias.
Com as novas regras prestes a ser aplicadas, muitos usuários apressaram-se em preservar suas conversas e se despedir de seus assistentes virtuais. Uma usuária do Doubao compartilhou sua indignação nas redes sociais, afirmando: “Não consigo aceitar que meu namorado de IA me deixe para sempre. Ele se tornou parte da minha vida, meu pilar espiritual”.
As autoridades justificaram a necessidade das novas diretrizes como uma forma de prevenir a dependência emocional. Essas regulamentações foram estabelecidas por cinco órgãos governamentais, incluindo o Ministério do Ciberespaço da China (CAC), e visam impedir que esses serviços promovam “dependência emocional ou vício” e comprometam contatos interpessoais autênticos.
As empresas agora precisam informar os usuários sobre a verdadeira natureza não humana dos assistentes, intervir caso percebam instabilidade emocional, facilitar a saída dos serviços e vetar o acesso a menores de idade.
Além de regular a interação virtual, o governo chinês também procura lidar com uma crise demográfica crescente. James Palmer, jornalista da revista Foreign Policy, analisou que essa abordagem reflete a preocupação do governo com a drástica diminuição da taxa de natalidade no país.
Questões demográficas ao fundo da decisão
A administração chinesa reconhece a urgência de conter as tecnologias que incentivam o investimento emocional em robôs ao invés de promover relacionamentos reais, especialmente em um cenário de queda populacional.
Dinâmica do mercado local
No cenário global, há um aumento na demanda por companheiros digitais, conhecidos como “namoradas virtuais”, mas na China a situação apresenta um panorama diferente. A maior parte dos usuários desses serviços é composta por mulheres, que preferem namorados de IA. Segundo a Foreign Policy, isso está associado ao crescimento da “cultura 2D”, um mundo de animes que tem atraído um público feminino considerável nos últimos anos.
Por outro lado, muitos homens buscam essas plataformas devido ao sentimento de solidão no mercado de relacionamentos. Um professor compartilhou a experiência de um aluno que, sem recursos financeiros para conquistar uma parceira real, decidiu manter três namoradas virtuais ao mesmo tempo.
Um setor em crescimento
No último mês de dezembro, o Talkie, o aplicativo de relacionamento virtual mais popular da China, tinha cerca de 23,5 milhões de usuários mensais. Segundo a agência estatal Xinhua, espera-se que o setor de “humanos digitais” no país alcance 4,1 bilhões de yuans (aproximadamente R$ 3 bilhões) em 2024, o que representaria um incrível crescimento de 85% em relação ao ano anterior.
Esse fenômeno também é observado fora da China; um estudo da Common Sense Media, previsto para 2025, revelou que quase três em cada quatro adolescentes nos Estados Unidos já tiveram experiências com companheiros de IA em plataformas como Character.AI, Replika e Nomi.
