O zero e a ausência: reflexões de Marcelo Viana
O cérebro humano evoluiu para nos ajudar a sobreviver, tornando-nos muito bons em perceber a presença de objetos ao nosso redor. Para nossos ancestrais na savana africana, distinguir rapidamente entre um predador, como um leopardo, e um alimento, como frutas, era crucial para a sobrevivência. No entanto, além de perceber o que está presente, o cérebro também reconhece a ausência de objetos, um aspecto importante da nossa atividade consciente.
A percepção da presença de um objeto é bem compreendida. Quando algo entra em nosso campo de visão, neurônios no córtex visual são ativados. Mas como o cérebro entende a ausência? O pesquisador Benjy Barnett, do Departamento de Neurociência da Imagem da University College de Londres, sugere que uma maneira de explorar essa questão é analisar como o cérebro representa o número zero. Assim como temos dificuldade em entender o zero em comparação aos números positivos, também somos menos eficazes ao lidar com a ausência do que com a presença.
Estudos indicam que bebês que já conhecem a letra F ficam surpresos quando ela é substituída pela letra E, mostrando que notam a presença de uma mudança. No entanto, se a troca for invertida, e o tracinho extra da letra F for removido, eles não reagem, indicando que não percebem a ausência. Isso não é diferente para adultos: quem já revisou um texto sabe que é mais fácil notar a adição de palavras do que a omissão de uma delas.
Pesquisas também mostram que o cérebro humano possui neurônios “especializados em zero”, que reagem a conjuntos vazios ou ao símbolo “0”. Além disso, estudos com macacos e pássaros revelam que esses animais também têm neurônios que se ativam em situações de ausência. Embora ainda não se saiba exatamente qual é a função desses neurônios, sua existência sugere que a percepção de ausência não é simplesmente a falta de atividade neuronal que ocorre quando um objeto está presente. As percepções de “ausência” e “presença” parecem envolver processos mentais diferentes.
Segundo a teoria do neurocientista Matan Mazor, da Universidade de Oxford, para perceber a ausência, precisamos raciocinar por contradição: “Se o objeto estivesse lá, eu o veria; o fato de que não vejo indica que ele está ausente.” Essa ideia é complexa, pois implica que o cérebro tem consciência dos nossos processos sensoriais e pode avaliar se estão funcionando corretamente. Isso levanta questões sobre a capacidade do cérebro de distinguir entre a ausência de um objeto e a falta de atenção do observador.
Se essa teoria estiver correta e se as representações neurológicas de “ausência” e “zero” forem semelhantes, a pesquisa sobre a compreensão do número zero pode fornecer informações valiosas sobre a consciência humana, um dos maiores mistérios da ciência hoje.