Aula em escolas cívico-militares inicia com filas e normas
A Escola Estadual Professor Lourenço Filho, localizada no Planalto Paulista, zona sul de São Paulo, passou a adotar um novo modelo de gestão cívico-militar desde o início deste mês. Com a implementação desse modelo, diversas regras foram introduzidas na rotina escolar, como filas, a execução do hino nacional, normas para o cabelo e a obrigatoriedade do uso de uniforme. As mudanças estão sendo recebidas de maneiras diferentes pelos alunos e seus familiares.
Na escola, dois policiais militares aposentados estão atuando como monitores. O tenente Gilberto Pereira da Silva Junior, de 55 anos, que é formado em educação física, explicou que as regras sobre o corte de cabelo visam manter um padrão discreto e compatível com o ambiente escolar. Ele destacou que cortes muito chamativos ou cabelos coloridos não são permitidos, mas que a proposta não é proibir a expressão pessoal, e sim estabelecer limites. “O aluno continua sendo quem ele é fora da escola”, afirmou.
A implementação do modelo cívico-militar abrange 100 escolas da rede estadual de São Paulo e envolve a atuação de 208 policiais militares aposentados, beneficiando aproximadamente 53 mil alunos, o que representa cerca de 1,5% do total de estudantes matriculados. O secretário executivo da Secretaria Estadual de Educação, Vinicius Neiva, afirmou que a quantidade de monitores em cada escola será ajustada de acordo com a necessidade específica de cada unidade.
Na Escola Professor Lourenço Filho, as manhãs começam com uma revista matinal que aborda temas como postura, ética e organização. Segundo Neiva, essas regras, já adotadas em outras instituições, são importantes para promover a disciplina e o respeito entre os alunos. O objetivo é trabalhar aspectos de convivência e respeito, além de prevenir casos de bullying e outras situações de conflito.
A sargento Elan Bispo, também policial militar aposentada e formada em pedagogia, comentou que o projeto visa contribuir com a formação dos alunos de forma integral, indo além do conteúdo acadêmico. Ela acredita que o civismo ensina a importância do dever e do exercício dos direitos.
Os monitores que atuam no projeto passaram por um treinamento antes de iniciar suas atividades nas escolas. Eles trabalham em conjunto com a direção e coordenação pedagógica, seguindo normas estabelecidas pela Secretaria da Educação. Vinicius Neiva garantiu que a implementação do modelo não altera a proposta pedagógica das escolas. A principal diferença é o suporte extra na rotina escolar, com foco em disciplina, respeito e civismo, além da introdução de uma nova disciplina no contraturno voltada à cidadania.
A lojista Andréa Morais, mãe de um aluno do 6º ano, comentou que a mudança tem sido desafiadora para seu filho, que é uma criança comunicativa. A família apoia a nova abordagem cívico-militar, embora reconheça que ajustes ainda são necessários. Ela acredita que é importante ter diferentes modelos de ensino disponíveis, permitindo que os responsáveis escolham a escola que mais se alinha aos seus valores e necessidades. Andréa mencionou que seu filho ficou um pouco chateado com a necessidade de adequar o corte de cabelo, mas a situação foi conversada e compreendida. Ela também expressou que algumas regras são necessárias, embora não concorde com proibições extremas.
Uma aluna da escola relatou que não se incomoda com a obrigatoriedade do uniforme, mas teve problemas com a qualidade das peças entregues, mencionando que algumas camisetas estavam excessivamente transparentes. Neste ano letivo, algumas escolas iniciaram sem a entrega dos uniformes, e os pais receberam orientações sobre como os alunos deveriam se vestir. O secretário Neiva afirmou que a entrega dos uniformes está em andamento e ajustes são esperados no primeiro semestre. A licitação para a compra dos uniformes foi aberta no ano passado, com um custo estimado em R$ 57,6 milhões para a aquisição de 1,2 milhão de peças, que devem incluir camisetas, calças, casacos e bermudas nas cores azul e branco.
Além disso, as novas regras exigem que meninas mantenham o cabelo preso e que meninos tenham cortes curtos. O uso de bonés, piercings e roupas curtas está proibido.
O programa cívico-militar, que foi uma promessa do governador Tarcísio de Freitas, deveria ter sido implementado em 2025, mas enfrentou atrasos devido a decisões judiciais. Apesar de ser uma estratégia do governo para conquistar apoio entre seus aliados, a iniciativa não é considerada prioridade pela equipe de Educação. A implementação das escolas cívico-militares terá um custo adicional de R$ 17 milhões por ano, destinado ao pagamento dos militares aposentados, que receberão uma diária de R$ 301,70, somando cerca de R$ 6.000 mensais, caso cumpram a carga máxima de trabalho. Essa remuneração é maior do que o piso salarial de R$ 5.565 dos professores da rede estadual, que precisam de formação superior para lecionar.