Capitalismo é o verdadeiro inimigo das mulheres, afirma feminista

Um livro escrito por Leopoldina Fortunati, uma socióloga italiana, no início dos anos 1980, traz uma discussão importante sobre o trabalho doméstico e o papel das mulheres na sociedade. Publicado pela primeira vez em 1981 na Itália, “O Arcano da Reprodução” argumenta que as atividades realizadas em casa, como cuidar dos filhos e realizar tarefas domésticas, devem ser reconhecidas como trabalho, assim como o trabalho em fábricas. Esta obra é uma das primeiras a tratar do tema e agora está sendo traduzida para o português, o que permite que mais pessoas tenham acesso a suas ideias.

Fortunati, que está com 76 anos, começou a desenvolver as ideias do livro durante a campanha “Wages for Housework” (salários para o trabalho doméstico) nos anos 1970. Ela relata que levou cerca de dez anos para concluir o texto, pois estava muito envolvida em atividades políticas que dificultavam o tempo para escrever. A obra se propõe a expandir a noção de que o trabalho não remunerado realizado dentro das famílias é, de fato, produtivo e gera valor dentro do sistema capitalista.

A socióloga destaca que o capitalismo acentua as desigualdades entre homens e mulheres. Enquanto o trabalhador assalariado tem uma relação direta com o capital através de seu trabalho, a mulher é frequentemente vista apenas como uma “força natural” em casa. Essa divisão é benéfica para o sistema, pois reduz os custos de produção, uma vez que muitas das funções essenciais, como a criação de novos trabalhadores e a preparação de refeições, são realizadas sem remuneração.

Fortunati também aborda a prostituição, considerando-a um trabalho “indiretamente assalariado”, onde o principal beneficiário é o capital. Nesse contexto, a mulher que exerce a prostituição não recebe um pagamento direto, mas o sistema capitalista se aproveita de sua força de trabalho para atender à demanda masculina por sexo. Além disso, ela critica a criminalização das trabalhadoras do sexo, o que dificulta sua organização e luta por melhores condições de trabalho.

A autora escreveu “O Arcano da Reprodução” para dialogar com a esquerda italiana da época, que, segundo ela, não reconhecia as mulheres como sujeitos políticos. Nos anos 1970, o movimento operaísta buscava modernizar o marxismo, mas mantinha uma visão tradicional sobre o papel feminino. Fortunati refuta a ideia de que as mulheres devem buscar liberdade por meio do trabalho assalariado em fábricas, argumentando que essa proposta é insuficiente e reflete uma visão equivocada sobre o papel das mulheres na sociedade.

Ela enfatiza que o verdadeiro adversário das mulheres é o capitalismo, e não os homens. Para Fortunati, é crucial que homens e mulheres se unam na luta por mudanças sociais significativas. A socióloga observa que a masculinidade ainda é moldada por valores capitalistas e que é necessário um processo de revisão dessa masculinidade.

Com a evolução do capitalismo desde 1981, Fortunati acredita que suas análises continuam relevantes, mesmo que a tecnologia tenha adicionado novas complexidades à questão. Ela defende que apenas a luta contra o capitalismo pode levar a uma verdadeira equidade de gênero. Quase cinco décadas depois, ela observa que o capitalismo se tornou ainda mais hegemônico, mas afirma que a resistência e a criatividade da classe trabalhadora, especialmente das mulheres, podem transformar a realidade. A autora conclui que, apesar dos desafios, as práticas cotidianas e a imaginação das pessoas podem ajudar a construir um futuro melhor.

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