Escolas buscam equilíbrio entre uso e críticas da IA

A inteligência artificial (IA) se tornou um tema central nas escolas brasileiras neste início de ano letivo. A situação se assemelha a uma disputa constante entre alunos e professores: enquanto os estudantes utilizam ferramentas de IA para redigir redações e trabalhos, os educadores tentam detectar esses conteúdos gerados por máquinas. Em resposta, os alunos estão se adaptando, utilizando novas ferramentas que produzem textos menos identificáveis como produzidos por IA.

A grande questão que tem gerado discussões entre professores, diretores e pais é se vale a pena continuar essa “caçada” ou se é hora de refletir sobre os riscos e benefícios da tecnologia, buscando um uso consciente e ético. Cláudia Tricate, diretora do Colégio Magno, em São Paulo, afirma que é preciso superar a resistência e aceitar que os alunos farão uso da IA. Ela destaca a importância de ensinar os estudantes a reconhecer quando e como utilizar essas ferramentas para desenvolver um senso crítico e fazer boas perguntas.

Uma pesquisa sobre o uso de tecnologia na educação, a TIC Educação, revelou que 70% dos alunos do ensino médio utilizam IA para realizar trabalhos escolares. Esse percentual pode ser ainda maior, já que a coleta de dados ocorreu entre agosto de 2024 e março de 2025. Lucas Chao, professor de IA no Liceu de Artes de São Paulo, explica que a escola está definindo as situações em que o uso da IA é permitido e quando é proibido. Ele menciona que, apesar das regras, nem sempre os alunos seguem as orientações. Caso um trabalho seja feito com IA em situações proibidas, a nota pode ser zerada. No entanto, Chao acredita que a proibição não é a solução ideal e que é importante desenvolver um pensamento crítico sobre a IA.

Para evitar a dependência das ferramentas de IA, muitas escolas têm optado por solicitar que os alunos escrevam redações à mão, especialmente como preparação para vestibulares que ainda não utilizam tecnologia digital. A IA também tem sido utilizada na correção de textos, e Cláudia Tricate lembra que é fundamental ensinar os alunos a refletir sobre o uso da IA: ela pode ser útil para corrigir, mas não deve substituir o processo de produção textual.

O uso da inteligência artificial não se limita apenas aos alunos; 53% dos professores brasileiros também afirmam utilizar essas ferramentas para criar e corrigir provas e planejar aulas. Esse número é superior à média de 36% dos docentes em 53 países avaliados pela OCDE. No entanto, países como França e Japão, onde o uso da IA por professores é menor, apresentam melhores resultados educacionais. A OCDE tem recomendado cautela na implementação da IA nas escolas, ressaltando a necessidade de mais pesquisas sobre os impactos no aprendizado.

Um relatório recente alertou para os riscos associados ao uso da IA, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento de habilidades humanas essenciais e à compreensão dos próprios processos de aprendizado. Além disso, há preocupações sobre privacidade e proteção de dados. O documento também enfatizou a importância de capacitar professores e alunos para um uso ético e responsável da tecnologia, garantindo que a IA atue como uma ferramenta de apoio e não como substituta do olhar humano.

Entretanto, muitos educadores ainda não se sentem plenamente preparados para lidar com essas questões. Segundo a TIC Educação 2025, apenas 54% dos professores brasileiros receberam formação para orientar os alunos no uso de tecnologias digitais. Neste ano, espera-se que seja aprovada a obrigatoriedade do ensino de inteligência artificial nos cursos de pedagogia e licenciatura.

Os educadores enfrentam também desafios como o cyberbullying, que se agravou com o uso de ferramentas que permitem criar imagens e vídeos manipulados a partir de fotos de crianças e adolescentes. O Colégio Porto Seguro, em São Paulo, tem promovido palestras para abordar essas questões. Alexandre Marcondes, diretor de tecnologia e inovação da instituição, mencionou que o ano passado foi marcado por preocupações dos pais sobre o uso de IA para redações e o aumento do cyberbullying.

Alessandra Buriti, coordenadora de educação digital do colégio, destacou que os alunos estão utilizando a IA de maneira construtiva. Um grupo, por exemplo, analisou dados sobre suicídio para identificar padrões e propor soluções de prevenção. Além disso, os professores têm usado ferramentas do próprio sistema da escola para monitorar o desempenho dos alunos e testado outras tecnologias em sala de aula. Um exemplo disso é um professor que pede aos alunos que façam um check-in no Microsoft Reflect no início de cada aula, utilizando um quiz sobre bem-estar para avaliar aspectos socioemocionais e ajudar os alunos com dificuldades.

Um dos principais desafios atuais na educação é integrar a IA ao projeto pedagógico das escolas, não apenas como uma ferramenta, mas também na construção de um olhar crítico. Juliana Caetano, coordenadora de tecnologia da educação do colégio Vera Cruz, enfatiza que a IA não deve ser demonizada nem idolatrada. É necessário encontrar um equilíbrio, utilizando a IA para complementar a inteligência humana.

Ela sugere que mesmo na educação infantil, as ferramentas de IA podem ser apresentadas de forma a incentivar a reflexão sobre seu uso. Um exemplo seria uma roda de conversa onde os alunos criam um herói e, em seguida, utilizam a IA para gerar uma imagem desse personagem. A partir do resultado, os alunos podem discutir a natureza da criação e questionar se a IA realmente “criou” algo ou se apenas seguiu as instruções dadas. Essa abordagem ajuda a desenvolver um pensamento crítico sobre as capacidades e limitações da inteligência artificial.

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