Indicação de Mello para o BC gera desconfiança no mercado
O cenário econômico brasileiro enfrenta um novo desafio com o possível nome do economista Guilherme Mello para uma vaga na diretoria do Banco Central. Esta indicação está gerando desconfiança entre os investidores e analistas do mercado financeiro, especialmente em um momento delicado, marcado pelo escândalo do banco Master.
Na manhã desta segunda-feira (2), o assunto foi amplamente discutido nas reuniões matinais, conhecidas como “morning calls”, das principais instituições financeiras localizadas na Faria Lima, em São Paulo. A expectativa é que, se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicar Mello, isso poderia ser interpretado como uma tentativa de interferência política do Partido dos Trabalhadores (PT) em uma das instituições mais importantes do país, em um período crítico para o Banco Central, que já lida com as repercussões do caso Master e a iminente redução da taxa Selic.
A queda da taxa Selic, atualmente em 15% ao ano, é aguardada para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para março. Mello, que atualmente é secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, conta com o apoio do ministro Fernando Haddad. Haddad está interessado em finalizar sua gestão com duas indicações já encaminhadas ao Senado para aprovação.
Guilherme Mello tem uma trajetória ligada ao PT, tendo atuado como assessor econômico na campanha presidencial de Haddad em 2018 e sendo um dos responsáveis pela elaboração do plano econômico da campanha de Lula em 2022. Ele é visto como um economista que se comunica bem, mas com uma abordagem heterodoxa. Mello é crítico da alta atual dos juros e da lentidão do Banco Central em iniciar a redução da taxa, que é esperada só para 2025.
Uma das posições em aberto no Banco Central é a diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, que analisou a compra do banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). A diretoria, que foi responsável por recomendar a rejeição da operação, ficou vaga após a saída de Renato Gomes, que deixou o cargo no final de dezembro. Outra posição importante é a diretoria de Política Econômica, anteriormente liderada por Diogo Guillen.
Há especulações no mercado sobre o que aconteceria se Mello fosse confirmado. Uma possibilidade é que isso resultasse em uma troca de cargos, com o atual diretor Paulo Picchetti sendo transferido para a diretoria de Política Econômica, a qual é fundamental para a definição das estratégias de juros e comunicação com o mercado.
Economistas têm expressado preocupações sobre o perfil de Mello, que poderia representar uma mudança significativa na credibilidade do Banco Central, atualmente liderado por Gabriel Galípolo. Há temores de que essa mudança possa trazer pressão adicional sobre a instituição e impactar suas decisões, especialmente considerando que a Fazenda havia sugerido um corte de três pontos na Selic, que poderia ter um efeito modesto na inflação.
Além disso, a desconfiança em relação a essa possível indicação já começa a se refletir nas taxas de juros futuros, que estão apresentando alta. A situação também pode indicar um enfraquecimento da posição de Galípolo, que já enfrenta pressão devido ao escândalo do banco Master, segundo a análise de economistas do setor. A expectativa é de que as próximas semanas sejam decisivas para o futuro do Banco Central e da política econômica do país.