Selic permite ganho de R$ 400 mil diários sem trabalho

O economista Ladislau Dowbor, de 84 anos, destaca a dificuldade que muitas pessoas têm em compreender grandes números e conceitos econômicos. Para ajudar a esclarecer esses pontos, ele produziu um vídeo intitulado “Entenda a economia em 15 minutos”. Dowbor é professor na PUC-SP e tem experiência como consultor para agências da ONU. Ele utiliza exemplos do dia a dia para explicar como funcionam as cifras e os indicadores econômicos.

Um dos exemplos que ele compartilha é o pagamento de R$ 350 por um dia de trabalho de uma faxineira. Esse valor é transferido digitalmente para a conta dela. No entanto, ele revela que a faxineira, por ter problemas de saúde, está vinculada a um plano de saúde gerido por uma empresa que, entre seus sócios, conta com a BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo. Isso significa que parte do dinheiro que ele paga à faxineira acaba indo para um grupo financeiro americano muito rico, que também é acionista de uma bandeira de cartão de crédito que ele usa para suas compras.

A pesquisa de Dowbor se concentra na transformação da sociedade na era digital e como isso afeta o capitalismo e a desigualdade. Seu livro “Os Desafios da Revolução Digital” ganhou o Prêmio Brasil de Economia 2025 e, no ano anterior, ele já havia sido premiado por outro livro, “Resgatar a Função Social da Economia”. Ao longo de sua carreira, ele publicou mais de 45 livros, muitos dos quais estão disponíveis gratuitamente em seu site. Dowbor também foi finalista do Prêmio Jabuti em 2021.

Um dos problemas principais que ele identifica no Brasil é a desigualdade, considerando o país como o mais desigual do mundo. O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil totaliza R$ 12,3 trilhões. Se esse valor fosse dividido igualmente entre a população de aproximadamente 215 milhões de pessoas, cada família de quatro integrantes receberia cerca de R$ 20 mil por mês. Apesar disso, a concentração de renda é alarmante, com os 300 bilionários do Brasil acumulando grandes fortunas. Dowbor explica que um bilionário que opta por comprar títulos do governo, que rendem 15% ao ano, pode ganhar mais de R$ 400 mil por dia, sem produzir nada. Enquanto isso, 80% da população enfrenta dificuldades apenas para fechar as contas mensais.

Essa desigualdade afeta a economia como um todo. Com menos pessoas comprando, a produção também diminui. Isso se torna um ciclo vicioso: quem tem dinheiro não investe em geração de riquezas, o que resulta em menos emprego e menos consumo. Ele compara a situação no Brasil com outros países, como a China, onde as taxas de juros são muito mais baixas. Isso facilita investimentos em produção, ao contrário do Brasil, onde as taxas são exorbitantes, dificultando o surgimento de novos negócios.

Dowbor critica o que chama de “palhaçada” do arcabouço fiscal brasileiro, que prioriza a redução de gastos em vez de investir em políticas sociais que poderiam melhorar a vida da população. Ele acredita que aumentar os investimentos em educação e saúde é essencial para enriquecer as famílias e, consequentemente, estimular a economia. Para ele, um ciclo econômico saudável depende do aumento da renda das famílias, que geraria maior demanda, mais investimentos e, portanto, mais empregos.

Ele menciona que, durante os governos de Lula e Dilma, houve uma leve melhora na economia brasileira, com crescimento médio de 3,8% ao ano. Entretanto, nos governos de Temer e Bolsonaro, a situação financeira se agravou. Dowbor argumenta que o bem-estar econômico das famílias não depende apenas do quanto elas têm no bolso, mas também da qualidade dos serviços públicos disponíveis, como saúde e educação.

Ele utiliza a comparação entre os sistemas de saúde dos Estados Unidos e da China para ilustrar seu ponto. Embora os americanos tenham um custo alto com saúde, sua expectativa de vida é semelhante à dos chineses, que investem em saúde preventiva e serviços públicos de qualidade. Para ele, o investimento em bem-estar econômico deve ser visto como uma prioridade, e não como um gasto.

Em termos de políticas públicas, Dowbor defende a necessidade de investimento em inclusão produtiva e infraestrutura. Ele argumenta que o governo deve se preocupar mais com para onde o dinheiro vai, em vez de se preocupar apenas com déficits. Ao investir em setores como saneamento básico e transporte, o governo não apenas melhora a qualidade de vida da população, mas também gera economia a longo prazo.

Por fim, ele critica a forma como as campanhas políticas são financiadas no Brasil, lembrando que a influência do setor financeiro na política tem um impacto negativo na economia. Dowbor propõe uma reavaliação do que é considerado investimento, destacando a diferença entre investimentos que geram produção e aqueles que são apenas especulativos. Ele conclui afirmando que é essencial mudar essa dinâmica para que a economia brasileira possa se desenvolver de forma mais justa e sustentável.

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