Um novo iluminismo para a infraestrutura em 2026
O negacionismo vai além de um simples debate acadêmico ou de discussões nas redes sociais. Ele afeta profundamente todos os aspectos da vida humana, pois altera a forma como as decisões coletivas são tomadas. Ao invés de se basear em métodos científicos, evidências e análises críticas, a mentalidade negacionista se apoia em opiniões pessoais, crenças arraigadas e uma visão distorcida da realidade. Quando esse tipo de mentalidade se torna predominante, não apenas os argumentos racionais são ignorados; projetos importantes podem ser adiados, a manutenção de serviços essenciais é comprometida e políticas públicas se transformam em meros slogans.
Historicamente, o Iluminismo trouxe uma contribuição crucial para a compreensão do mundo: a crença de que a realidade pode ser conhecida e administrada por meio de regras racionais que podem ser testadas e aprimoradas. O autor Steven Pinker, ao falar sobre um “novo Iluminismo”, argumenta que o progresso não é um evento milagroso ou um destino inevitável; ele é fruto da ciência, de instituições sólidas e da cooperação entre as pessoas.
Um exemplo claro de progresso é o aumento da expectativa de vida, que não resultou de discursos vazios, mas de decisões práticas e técnicas. Melhorias como o fornecimento de água tratada, a coleta de esgoto, a vacinação, o uso de antibióticos, a energia confiável e o transporte seguro têm um papel fundamental nesse aumento. As casas modernas são projetadas com sistemas elétricos e conexões de internet porque a vida atual depende de uma infraestrutura que muitas vezes não é visível. Banheiros, pias e outras áreas de higiene foram planejados com a compreensão de que a saúde pública começa nas pequenas coisas do dia a dia.
A concepção moderna de saneamento, que inclui redes públicas, ligações em residências, estações de tratamento e um rigoroso monitoramento, é um desenvolvimento relativamente recente. Esse sistema se consolidou no século 19, em resposta a epidemias urbanas e à necessidade de engenharia sanitária, que mostraram que o esgoto é um problema coletivo, não apenas individual.
O filósofo Thomas Kuhn nos ajuda a entender o impacto do negacionismo nos dias de hoje. Os paradigmas que aceitamos influenciam o que percebemos, o que ignoramos e até o que consideramos normal. O negacionismo representa uma forma simplista de pensar, que escolhe apenas os fatos que confortam e descarta aqueles que desafiam suas crenças. A lógica de Ouydire, um personagem de Rabelais, exemplifica essa mentalidade, onde a repetição se torna um critério de verdade e há desconfiança em relação a informações que exigem análise.
Carl Popper, um importante filósofo da ciência, nos lembrou que a ciência não deve ser vista como uma coleção de dogmas, mas como um método que envolve conjecturas e a possibilidade de refutação. O negacionismo, por outro lado, cria crenças que não podem ser testadas e substitui o método científico por intuições e lealdades pessoais.
Quando essa mentalidade invade o debate público, a própria noção de infraestrutura é desvalorizada. É mais comum ver políticos cortando fitas de inauguração de grandes obras do que investindo em sistemas de saneamento que operam discretamente. Promessas de preços baixos muitas vezes são feitas sem considerar os custos reais, como qualidade da água, dados sobre a demanda, riscos climáticos e a importância da manutenção preventiva.
Para que possamos expandir o acesso às infraestruturas do século 21, especialmente em relação ao saneamento, é fundamental ultrapassar essa mentalidade negacionista. Um novo Iluminismo não é apenas uma reflexão nostálgica; é uma condição essencial para o desenvolvimento futuro. O que isso significa para o debate sobre saneamento, corporativismo e investimentos no Brasil será abordado em um próximo artigo.